domingo, 2 de janeiro de 2011

A foto e os mortos

Minha avó, com seus 93 anos, gosta de mostrar algumas fotos para quem vai visitá-la. Uma, em especial, chama a atenção. São cerca de 15 homens enfileirados mostrando felizes o produto de uma caçada. Porque é claro que meu avô e seus primos, gaúchos gaudérios, caçavam. Vira e mexe a vó mostra a foto com o mesmo comentário lacônico: "de todos estes que estão aqui só o Bibe e o Renan estão vivos..." Mostra e comenta, invariavelmente. Dia desses minha prima foi visitá-la com sua filha, a Paulinha, que tem seis anos. A Paulinha viu a foto e escutou a conversa. Depois, quando apareceu outra visita, a Paulinha ouviu repetir-se a estória. Na terceira vez, não se aguentou. Olhou bem séria para minha vó e perguntou: "será que foi o flash que era muito forte?".

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Feliz 2011

2010 foi um ano de extremos. Começou muito ruim, com perdas emocionais irreparáveis. E continuou com ganhos subjetivos e materiais importantes. No final não dá para medir pq não é possível misturar laranjas e bananas. Então, que venha 2011. Pela primeira vez, não consigo fazer desejos específicos. Sinal dos tempos, da nova década?

domingo, 28 de novembro de 2010

Não basta ser mãe

Tem que participar. Por isso eu e o Má fomos assistir ao show da banda do meu filho, Estudio Caseiro, em um restaurante aqui na Granja. Adorei. Não apenas as músicas que eles tocam do repertório alheio, como algumas do Lenine, mas as próprias, tipo Te Quero, que apesar do nome fala sobre corrupção e a composta pelo Iago, que lá pelas tantas menciona: "São Paulo cresce e eu assisto fluoexetina virar água para a nação."
Tá bom. Sou mãe. E aí vejo o cara, alto, crescido, guitarrista, tocando e a imagem que cola é a daquele meninhinho de quatro anos que me perguntava sobre tudo e que me amava incondicionalmente. Os revisionistas de Freud que me desculpem, mas o Édipo existe sim.
Mudando um pouco de enfoque, mas ainda dentro do mesmo tema. Meu pai sempre falava sobre o dito árabe sobre a vida plena: quando você teve filhos, plantou árvores e escreveu livros. Pois bem. Tive filhos e estes, mesmo sem saber, levam pedacinhos de mim. Iago, com seu inconformismo, Ju com sua garra e Fer com sua vontade de mudar o mundo. Sorry, mas eu me vejo muito nesses projetos. Escrevi algo. E plantei várias árvores. Apenas hoje, que estou nesse espírito, durmo com a sensação do dever cumprido. Com o mundo.

Começo

O final do ano se aproxima. Mas eu já pulei e estou no começo do outro. Esta época evidencia nossas (ou minhas) ligações com a humanidade mais anterior. Aquela que vive pelos ciclos, em que cada ano é um novo, carregado de possibilidades. A maior delas a possibilidade de se reinventar. Fazer diferente o que não tem mais sentido. Há incontáveis finais de ano tento fazer isso. Deixar de lado o que é peso extra, passar pela vida mais levemente. Verdade que neste tempo todo já limpei bem o sótão, joguei fora inúmeras quinquilharias. Algumas bem pesadas, inclusive. Mas ainda tem tanto espaço preenchido por baboseiras... Pensamentos velhos, emoções quebradas, desejos que não servem mais. Coisas inúteis as quais nos apegamos como quem se apega a e-mails antigos, achando que em algum momento vai relê-los e organizá-los. Mas obviamente nunca vamos fazer isso. E para quê? Tem coisas que só serviam há tempos atrás. Aliás, mesmo há tempos atrás eram estranhas, quase que costeletagrudadanobigode, quem dirá hoje em dia. No final do ano, como um ser cíclico, sou devorada por esta compreensão. E como ser simbólico, começo a jogar fora as coisas que estão sobrando na casa. Se arrumar a cabeça dá trabalho, que tal começar com o entorno? É um ritual e tem também a vantagem de dar um trabalho danado, o que de certa forma deve agradar aos deuses. Assim, nem bem terminou o ano e eu já estou com uma coceira danada, quase a ponto de impedir o foco no presente. Este começo, estou sentindo nos ossos, é daqueles que anunciam a retirada de pesos pesados do meu sótão.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Compenetrado

Os alunos entregaram os trabalhos e a aula acabou mais cedo. Fico na sala dos professores, esperando a hora do ponto. Eu e outros. Entre nós, lá no canto, sentado sozinho na mesa, está um homem compenetrado. Computador, caneta na mão fazendo anotações e fones de ouvido. Quase virado para a parede, não levanta e olha em volta. Trabalha, ou ouve uma carta de amor, não dá para saber. Só que ele está completamente absorvido pelo que faz. Eu por outro lado sento, levanto, tomo café, tento ler. Leio e deixo o livro de lado. Derrubo o livro. Levanto novamente, penso na vida. No sofá, no seguro do carro, nas reclamações do meu filho, nas tarefas das aulas, no relatório de iniciação científica, nas reuniões, em projetos possíveis, em situações que estão se tornando impossíveis. Que gostaria de emagrecer, mas não consigo me disciplinar. Penso em livros para escrever, organizar e em coisas que desejo aprender. Enquanto isso, o homem continua lá. Impassível. Na mesma posição. A única coisa que move é sua caneta, correndo no papel vez ou outra. Ele lá, compenetrado. E eu do outro lado, desassossegada. Sua compenetração é tanta, que afronta minha incapacidade de ficar quieta.

sábado, 25 de setembro de 2010

Cães e gatos

As vantagens de ter cães e gatos em casa: além de não sobrar muita comida, facilita a limpeza quando a gente derruba no chão um prato cheio de frango com molho. Depois deles é só passar um pano com desinfetante. Não sobra migalha nem pra contar. Mas tem umas coisas que são um pouco incomodas. Como tropeçar na gata que insiste em rodar nas tuas pernas. E ter que pular quando o cachorro resolve brincar com a gata-enrolada-nas-tuas-pernas e ela, por usa vez, resolve unhá-lo (típico de gatos). Ou sentir-se observada e perceber que sim, vc está mesmo sendo obsevada atentamente por uma gata sentada na porta do banheiro. Ou acordar e ter que abrir a porta para o cachorro que não aguenta movimento dentro de casa sem dar uma olhadinha no que acontece. O bom é que aqui em casa pelo menos uma coisa funciona: o horário de dormir. Lá pelas dez horas eles estão pingando de sono, é só chamar que os dois marcham para as respectivas camas -- que ficam na varanda, lado a lado.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Sala dos Professores

Intervalo.
Vai e vêm na sala dos professores. Gente trabalhando nas mesas, gente aproveitando para ver e-mails.
Coordenador de curso sentado no sofá, olhos semicerrados.
Professores bebericando café e colocando o papo em dia no outro sofá.
Entra um professor, senta-se pesadamente ao lado do coordenador, olha e avisa: "se aparecer um pai de aluna reclamando que eu mandei visitar uma exposição que tem pinto, segura a onda!"
Depois dizem que ser coordenador é bom.