sábado, 8 de março de 2014

Dia Internacional da Mulher

Vó, no contra fluxo, eu resolvi passar o dia internacional da mulher na cozinha. Achei que podia me dar ao luxo, depois de alguns posts no face.
Primeiro arrumei a geladeira nova, que estava fazendo falta aqui no sítio. E nessa arrumação, descobri vários doces de figo (figo verde, figo seco, restos de geleia), que resolvi reaproveitar e tentar transformar na tua figada, aquela que eu sempre adorei. 
Claro que não consegui, pq montes de doces de figo não fazem uma figada. Mas ficou perto. E cozinhar me lembrou muito de ti e dos doces escondidos no armarinho que ficava perto do fogão a lenha. Esse armário povoou meus sonhos de infância. Quase todos os dias eu esperava encontrar a chave na fechadura, e ficava com o olho maior do mundo quando ele era aberto e dava para ver, de relance, as compotas e as adoradas figadas. Na minha casa eu sempre quis ter um armário com chave para guardar as guloseimas. E fui veementemente reprovada, pq "onde já se viu? guardar comida à chave?". Esse povo nunca vai saber o que é ter um armário do desejo, inexpugnável, quase glorioso. Esse armário, aliás, foi também um dos primeiros que me ensinou que temos que ter cuidado com os desejos, já que eles podem ser atendidos. Foi o que aconteceu: um belo dia, esqueceram a chave na fechadura e eu ataquei o armário de doces e comi quase uma caixa inteira de figada. Fiquei com tanto enjoo que só consegui voltar a comer figada depois de anos...
Pois é. Do dia internacional da mulher direto para a figada. E para lembranças de ti, que nesses dias têm aparecido assim, sem qualquer esforço.  

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Minha avó

Minha avó morreu dia 20 de novembro de 2013, aos 96 anos. Em casa, naturalmente, com minha mãe ao lado, segurando sua mão. De todas as perdas, a dela foi a mais fácil de lidar, já que a longevidade mais que nos preparou para sua ausência. Só que, estranhamente, sobre ela não consegui falar nada depois. Não escrevi, não comentei muito, não interagi com sua morte. Só que há algum tempo, tenho pensado que deveria escrever sobre ela, já que essa é a forma que conheço de refletir. A primeira coisa que me cutuca é o porquê da resistência em concretizar seu obituário particular. Talvez porque a morte dela foi desejada, já que sua idade estava pesando demais. Ela mesma, há muito tempo, falava em morrer e dizia, weberianamente, sem ódio ou amor "vocês pensam que viver não cansa?".Mas também desejei que meu pai descansasse e parasse de sofrer, e escrevi sobre e para ele no dia de sua morte. Então o quê? Talvez pelo fato de não ter qualquer ponta de frustração por sua morte, já que a eternização da vida não parece ser algo muito prático. Mas agora já passou o tempo da normalidade e eu estou conseguindo interagir com sua ausência. E posso, finalmente, lembrar e falar dela.
Minha avó era linda e vaidosa. Sempre foi, e graças a ela eu aprendi que "futilidade" tem um lugar na vida e serve para dar leveza. Com ela, direta ou indiretamente, aprendi a apreciar coisas bonitas. Copos de cristal, colchas de crochê, "cobertas de mesa", como se diz no sul, móveis e coisas assim. Minha avó sempre esteve muito junto e são inúmeras as histórias que tenho dela e dela comigo. Como quando ela me ensinou a ir ao banheiro sozinha. Apesar de eu ser uma criança de dois a três anos, lembro do banheiro de sua casa e da estratégia que ela adotou: me dar gibis para folhear e sossegar. Hoje em todos os banheiros da minha casa têm livros, revistas e gibis. E quando ela levava café na cama para mim e minha irmã porque estava muito frio em Caçador (cidade no oeste catarinense) para levantarmos e irmos para a cozinha. Até hoje, café na cama é um sinal de afeto em minha casa. Ou quando, de noite ela esquentava um tijolo no fogão a lenha, embrulhava em uma toalha e colocava em nossos pés para dormir, coisa que hoje faço no sítio em Cunha, onde também faz muito frio. Aliás, termos um sitio em Cunha por si só é uma lembrança de meus avós, pois foi em Caçador que aprendi a conviver com araucárias e pinhões. Mas as lembranças e afetos não são apenas geográficos. São também de vida,
por exemplo quando, aos meus nove anos, ela exigiu que eu me defendesse do meu primo, que costumava me bater (apesar de sermos ótimos amigos).Forneceu-me um tamanco e disse: "bate nele com isso que ele nunca mais vai te bater". Eu fiquei com receio do resultado e acabei não usando o tamanco. Mas a sua atitude de exigir que eu aprendesse a me defender é inesquecível. Talvez tenha sido a primeira vez que eu tenha me dado conta dessa necessidade. Minha vó ria de chorar e adorava colocar palavrões no jogo de palavras cruzadas. Era uma ótima mentirosa, como suas irmãs, e usava a mentira para se defender num mundo nem sempre muito fácil para mulheres. Quando eu fiz 15 anos, ela e meu avô me deram uma pulseira de debutante. O que meu avô nunca soube, é que o preço que ela lhe passou era inferior ao que a pulseira realmente valia, pois se soubesse talvez não quisesse comprá-la. O que faltava, ela pagou "desviando" parte do orçamento doméstico -- coisa que fazia com certa regularidade. Só anos mais tarde, em terapia, dei-me conta de como a presença constante de minha avó na vida contrabalançou o excesso de seriedade dos meus pais. O excesso de valorização do trabalho e o excesso de valorização das virtudes, como nunca mentir. Não que eu seja uma mentirosa contumaz como minha avó, que partilhava do refrão das irmãs Sá Britto: "a verdade é uma coisa muito séria para ser usada de forma tão indiscriminada". Assim falando, parece que minha avó não tinha virtudes. Ao contrário. Ela era extremamente generosa e preocupada com todos a sua volta. E muito disponível para o outro, coisa que marcou a sua existência e que, com certeza, a da minha mãe e, por tabela, a minha e de minha irmã. Foi minha avó que me ensinou a rezar. E ela não era religiosa, não frequentava missa nem nada. Mas me ensinou versos simples, voltados a Nossa Sra. e ao Anjo da Guarda, que até hoje, com todo meu agnosticismo, eu cultivo. Minha avó costumava acender velas para pedir graças dentro de sua visão particular de religião. E eu, com toda minha descrença, sempre que preciso acendo velas, porque só o fato de fazê-lo me liga a alguém que é tão importante em minha vida. Eu poderia escrever indefinidamente sobre minha avó. Mas acho que a foto que tiramos juntas há poucos anos, talvez seja mais significativa. Ali eu vejo uma mulher velha, linda e orgulhosa. E uma mulher madura, que está com cara de criança porque está com sua amada vó. 

2013

Passou e eu nem escrevi no Blog. Aderi ao Face e acabei resumindo-me. Este ano, pretendo retomar, pq tem coisas que poucos caracteres não suportam. Ou não deveriam.

sábado, 18 de agosto de 2012

Minha casa

Eu deveria escrever sobre muitas coisas, antes disso. Mas hoje, aqui no por do sol em minha casa, não consigo pensar em mais nada além da explicação simples do porquê não consigo sair daqui. Moro longe de São Paulo. Não tanto, mas longe o suficiente para perder quase uma hora e meia no trânsito. Por isso acordo super cedo, por volta das cinco, quando tenho que dar aulas às sete e meia. E volto para casa por volta da meia noite, porque minhas aulas terminam às onze. Como o trânsito é infernal, nunca volto para casa no meio do dia. E, para compensar, muitas vezes tiro um cochilo vespertino no carro. Para aguentar o tranco. Ou seja, tenho uma vida infernal em termos de horário e, consequentemente, em termos metabólicos.  Nos finais de semana, frequentemente pego várias horas de estrada para ir para o sítio, nosso pequeno pedaço de paraíso na terra. O lógico seria, portanto, abandonar essa casa longínqua, viver em um apertamento em Sampa e investir no espaço do sítio. Foi essa a proposta do Má em minha primeira semana de aulas (quando ele percebe meu horário). Mas hoje, sábado, eu percebo a dificuldade em desapegar desta casa. Estou sozinha, trabalhando, vendo tv, conversando com o gato e o cachorro. E vendo o sol se por pelas amplas janelas da sala. Minha casa é de madeira. A parte de cima inteira. E o sol cai na madeira de um jeito que não dá para imaginar, só vendo. Minha casa é ampla. Agora, que os filhos todos (praticamente) se foram, ela é muito grande. Mas quando eram pequenos, ela cabia perfeitamente para nossa família. Cada um tinha seu quarto, dividíamos de forma quase harmônica os espaços coletivos, que viviam desarrumados por conta da bagunça das três crianças. Tínhamos três cachorros, um de cada filho, e o gato ou gatos. Todos na maior confusão, sempre. Um dia, em terapia, pediram que eu desenhasse minha família. Eu desenhei uma árvore grande e cheia de raízes, para representar meus pais e irmã. E desenhei um circo colorido, para representar meu marido e filhos. Este circo era esta casa de madeira, acolhedora, cheia de árvores. As árvores, aliás, são um capítulo a parte. Além das que eu plantei com meu filho quando esse era bem pequenino, de caroços de frutas que comemos juntos -- uma mangueira, um caquizeiro e um abacateiro-- as outras foram plantadas primeiro por meu pai. Depois pelo Má. Acho que eu errei nos desenhos. Meu circo está repleto de raízes. Por isso, apesar dos pesares, não consigo abandoná-lo.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Politicamente Correto?

A Claudia Dalla tem umas estórias saborosas. Tudo acontece com ela. Como as narrativas que envolvem as dificuldades de se movimentar nestes tempos de direitos específicos. A Dalla acha que muitos idosos, por exemplo, estão perdendo completamente a boa educação. Eu acho que as pessoas nunca melhoram com a idade, só acentuam traços que já possuíam. Falta de educação, por exemplo. Essa conversa toda começou quando contei para ela o estresse que passei no supermercado. Uma "simpática" sra. idosa ficou furiosa comigo porque chegou e eu estava sendo atendida na caixa Preferencial (não Exclusiva, veja bem), para idosos. E brigou comigo e com a caixa, que em vão tentava explicar que, não havendo ninguém nas condições especiais na fila, outras pessoas poderiam ser atendidas. Detalhe: só dois caixas estavam abertos, este e outro sem destinação específica. Mas, como sempre, com a Dalla a coisa ganha outros contornos. Ela estava numa repartição pública e uma idosa pedia informações para a atendente. Que explicou uma vez e a sra. não entendeu. Explicou pela segunda vez e nada. Na terceira, explicou, virou as costas e se esquivou no balcão. A Claudia, solidária, achou uma afronta e falou com a idosa: "que coisa feia, ela deveria ter lhe atendido melhor, o que custa ter paciência?" Para quê. A sra., sentindo-se amparada, começou a gritar para a atendente, que tinha um defeito físico, com um indefectível sotaque português: "ó do pescoço curto, vem cá me atender, pois". E a Dalla ficou lá, atônita e morrendo de vergonha.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

O penacho da Isadora

Isadora era conservadora. Ou melhor, uma perfeita integrada ao sistema corporativo. Ao neoliberalismo. Ao grande irmão. Ao capitalismo selvagem e à crença que só os mais aptos devem sobreviver. Funcionária exemplar, não havia uma regra que não conhecesse, um formulário -- em papel ou virtual-- que não usasse, um comentário desairoso sobre alguém que chegasse atrasado (ou faltasse, crime dos crimes), que não fizesse. A rígida eficiência transparecia nos poros. Ou melhor, nas roupas, pq os poros quase não eram mostrados. Sempre conjuntos impecáveis, tom sobre tom. Nada chamativo, uma vida em bege. Ou cinza. Ou preto. Ou preto e branco. Sapatos confortáveis para a correria dentro do escritório, mas elegantes. Nada ostensivo, nada barato nem caro demais. Tudo sempre na medida correta. Isadora não fazia hora extra, pq até o trabalho era na medida. Mas não desperdiçava um minuto sequer do dia. Cafezinho? Só no meio da manhã e no meio da tarde. Um xícara, duas gotas de adoçante. Cinco minutos gastos com cada um. Tomava o cafezinho não porque gostasse, mas porque o acordo coletivo da categoria assim estipulava. Almoçava pontualmente das 12:30 às 13:30. Nem um minuto a mais ou a menos. Isadora era de uma pontualidade soberba. Dava para acertar os relógios pelo seu ritmo, mesmo no início e no fim do horário de verão. Usava geralmente golas que iam até a base do pescoço, delicadamente encontrando o cabelo curto e castanho regular -- a única cor que ela poderia aceitar. Só havia em toda a personalidade transparente de Isadora um único traço fora de lugar: ela cultivava na parte de trás de seus cabelos cuidadosamente cortados, um penacho. Que ia até o meio das costas. Branco, descolorido. Não era exagerado, mas em alguém como a Isadora parecia uma bandeira desfraldada. Um clarão ao longe em uma noite escura. Um estrondo rápido mas certeiro no meio do silêncio. Um cartaz anunciando a todos que Isadora no fundo, no fundo, invejava a transgressão que não tinha coragem de abraçar.

terça-feira, 22 de maio de 2012

No vão da escada

Meu amigo Moisés tornou preciso o significado da expressão portuguesa "no vão de escada". Diz ele: "Diz-se de de uma Escola, de uma loja, de um escritório, etc, com pretensões, mas que afinal é coisa mixuruca e irrelevante. Pode dizer-se de um curso, que seja dado no ' vão de escada' , ou seja, em condições péssimas, em instalações indignas, com professores de segunda ou terceira categoria". Acho que, mesmo sem usar bastante a expressão, no Brasil importamos e levamos o conceito ao paroxismo. Estamos sempre a fazer as coisas no "vão da escada". Sem condições, precariamente. E, muitas vezes, envolvendo gentes de "segunda ou terceira" categoria. Mas sempre pretensiosamente, a pose não pode faltar.