terça-feira, 24 de março de 2015

Da morte condicional

Na quarta de madrugada, dia 18 de março, morreu o pai do meu filho. Meu ex-marido desde 1994, Gunther Josef Hamann Jr,tinha apenas 55 anos e sofreu um ataque cardíaco fulminante. Iago, meu filho, recebeu a notícia no celular lá pelas 3 da manhã. Acordei com ele falando no telefone. Estávamos sós em casa e eu logo saquei que algo grave havia acontecido pela sua expressão, confirmada em seguida por um "mãe, meu pai morreu!", chocado e assustado. Lembrou-me o menino pequeno que corria para mim em caso de susto e necessidade, desamparado. Um homem de 23 anos, mas chocado e desemparado.
A partir daí nossas vidas viraram de cabeça para baixo, pois mortes repentinas implicam em correrias em delegacias, identificações, e tudo o que já é extremamente penoso em mortes anunciadas exacerba-se. Meio aos trancos e barrancos, com a ajuda inestimável dos lindos e preciosos amigos do Iago, conseguimos organizar um velório e a cerimônia de cremação. Um velório para um comunista de carteirinha que não queria nada disso. Não por ele, por seu filho, familiares, seus amigos e amigas, que vieram em massa na noite de quarta e manhã de quinta. Mesmo ele teria gostado de ver tantas pessoas queridas prestando homenagem. E falando sobre ele, em vez das tradicionais orações. Foi muito bonito e comovente.
Gunther não queria velório e deixou isso bem claro em carta que escreveu para Iago em janeiro de 2014, após ter experienciado o final de vida caótico do próprio pai. A carta foi feita no início de 2014 e refeita a cada semana desde então. São mais de quinze páginas com instruções detalhadas sobre o que fazer, desde o contato com a advogada até para quem dar os discos de vinil e os milhares de fitas de VHS.
Desde o dia de sua morte que tento escrever algo, como catarse. Mas essa é a primeira das mortes que sofro que não é plena. Todas as outras, do meu pai, minha avó e minhas amigas queridas (Vanessa e Jane), eram mortes que deixaram apenas um rastro de amor, incondicional.
Não é o caso quando falo de um ex marido com o qual convivi cerca de dez anos, mas do qual me separei há mais de vinte. Não me reconheço mais naquela pessoa que esteve casada com ele. Assim como não reconhecia mais a ele como o homem com quem me casei tão nova e despreparada.
Enfim. Aqui vão as impressões catárticas e uma elegia torta, como foi torto meu ex-marido.
Sua carta, por exemplo, foi uma ode a sua essência. Obsessiva, exagerada. Compulsiva. Mas, ao mesmo tempo, reforçando o amor incondicional que sentia pelo filho. Aliás, usando frase típica que proferia seguidamente, "tenho a mais absoluta certeza" que Gunther amava seu filho mais do que a si próprio. Um amor torto, cheio de exigências, espelhamentos e sufocante muitas vezes, mas infinitamente melhor do que um amor que não se confirma. E Iago aprendeu a lidar com isso, assim como aprendeu a lidar com o pai.
Gunther era um homem de certezas. Sempre e sobre quase tudo. O que dificultava uma relação aprofundada com ele no cotidiano. Era também um homem generoso com os amigos e amigas e muito afetivo. O que cativava as pessoas o tempo inteiro. Era muito inteligente, perspicaz para muitas coisas, menos para perceber o que fazia de errado. E por isso costumava repetir erros. Mas era alegre, festivo, gregário. Fazia de tudo para os amigos e amigas, mantendo com eles uma relação típica de um homem que não tinha deixado de ser adolescente.
Um homem adolescente que, como todo jovem, deixou a onipotência dominar. O dia de amanhã não existia e a precaução era coisa para ter na velhice, que estava tão longe para ele quanto para alguém de 18 anos.
E, de fato, o amanhã não existiu e a velhice não chegou. Escapou, portanto, daquilo que tinha tanto medo.

sábado, 12 de julho de 2014

Cinquentona

Inevitável acordar com esse palavrão na cabeça. Dia 12 de julho de 2014: nasci há 50 anos, ou seja, meio século. Coisa pacas. E, ao mesmo tempo, quase nada. Minha avó, que morreu com 96, aos oitenta e pouco dizia que "a gente pisca e acorda velha". Cinquenta anos, então, deve ser meia piscada, quase brincadeira. Com a gente, bem entendido. Pq nessa idade, ainda nos sentimos tão jovens, tão vitais, tão cheios de futuro. E, no entanto, com certeza já trilhamos mais da metade da vida. E já não somos os mesmos. Aos quarenta eu ainda conseguia mentir para mim mesma que não passava dos trinta e poucos, mas agora, aos cinquenta, me sinto mais longe dos trinta do que se tivesse dez anos. O corpo mudou, a disposição mudou, a compreensão da vida mudou, as certezas diminuíram, mas ficaram mais fortes. As dúvidas aumentaram, mas não importam tanto. E, se não fosse isso, meus filhos, que antes eram crianças, agora são adultos. Até o mais novo, se bem que às vezes (ele) não se dê conta disso. Como ser jovem com filhos adultos? Ou com alunos que te olham como se vc estivesse irremediavelmente distante da geração deles? E é claro que vc está, pq com certeza tem a idade das mães da maioria dos seus alunos de hoje. Se não é mais velha...Então, apesar do modelito calça jeans e camiseta hering (que talvez eu nunca abandone), eu sei que sou uma senhora. Não uma senhora daquelas antigas, que eram senhoras a partir dos quarenta (ou dos trinta, segundo Balzac). Mas uma sra. por fora com paixões, gostos e vontades muitas vezes ainda de criança, por dentro. Pois este é o paradoxo todo do negócio: a gente muda muito, mas continua muito igual. Então, para comemorar estes 50 anos, nada melhor do que um selfie metafórico: